Barreiras para implementação de CCS são políticas e comerciais, dizem experts em evento do RCGI

Algumas certezas emergem
do quarto encontro anual internacional organizado pelo Fapesp Shell Research
Centre for Gas Innovation (RCGI). Primeira: temos tecnologia o suficiente para implementar
projetos de Carbon Capture and Storage (CCS) – que, segundo o Painel
Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), são cruciais para viabilizar
a mitigação de gases-estufa – mas ainda temos de saber como fazer dinheiro com
a tecnologia. Segundo: é preciso falar com a sociedade e iniciar projetos
demonstrativos para mostrar a ela que a tecnologia é viável. E terceiro: os
maiores entraves para a implementação massiva de tais projetos são barreiras
políticas, de governança e de licença social, além dos custos, que são altos no
caso da captura de carbono oriundo de fósseis, mas baixam significativamente no
caso da captura de CO2 de biomassa.  

Foram dois dias de
evento, com a participação de mais de 300 pesquisadores, a presença de oito
palestrantes internacionais, a apresentação de 120 artigos em sessões paralelas
e de mais de cem pôsteres. Boa parte dospalestrantes e participantes da
conferência concordaram que entre os grandes gargalos para a implementação de
CCS no mundo estão questões comerciais, políticas, de governança e de licença
social, e que questões tecnológicas, hoje, não são mais o grande problema.
Segundo eles, não é preciso educar somente a sociedade, mas os governos também.

“O papel dos governos é crucial. Investimento em reflorestamento e em renováveis é altamente necessário. Mas, enquanto isso, temos de fazer alguma coisa. Devemos nos lembrar que a natureza não precisa de nós, mas nós precisamos dela”, afirmou Chinnakonda Gopinah, do National Chemical Laboratory, na Índia. Segundo ele, em seu país, agora, é mandatório que todas as empresas invistam 1% de seu lucro em responsabilidade social.

A Índia ainda usa carvão
largamente, e também depende seriamente da importação de energéticos (como
carvão, gás natural e petróleo).“As maiores oportunidades para CCS na Índia
estão no setor de geração de energia. O governo tem planos de investir em CCS,
apesar dos custos altos.”

De acordo com a exposição
de Adam Hawkes, diretor do Sustainable Gas Institute, com sede no Imperial
College London, o governo pode fazer a diferença para o bem e para o mal.
“Tivemos três ‘ondas’ de tentativa de implementação de CCS no Reino Unido. Na
primeira, no início dos anos 2000, havia 4 projetos demonstrativos na mesa. Mas
houve um atraso no calendário e o governo decidiu fazer um Front-End Engineering Design (FEED). O ambiente
regulatório também mudou rapidamente, e as empresas envolvidas acabaram se
retirando. Na segunda onda, que aconteceu de 2012 a 2015, o governo anunciou um
montante disponível para projetos de CCS, e depois, disse que não havia mais
dinheiro. Agora, em 2018, foi organizada uma força tarefa e mais um projeto foi
criado, desta vez com foco em criar estruturas de CCS ao redor de hubs
industriais, como Liverpool e Manchester.”

Hawkes afirma que, no
Reino Unido, o governo não foi capaz de criar um ambiente confiável para a CCS
em nenhum adas duas primeiras tentativas. “O suporte das políticas públicas foi
muito turbulento.” Para ele, mundialmente falando, as barreiras tecnológicas
para a implementação de CCS são muito pequenas. “Os desafios são comerciais. E há,
ainda, certa preocupação no tocante a atrair investimentos para a atividade.”

Os custos das operações
de CCS são também apontados como uma barreira, uma vez que boa parte recairá
sobre a sociedade, e esta ainda sabe pouco ou muito pouco sobre CCS e a
necessidade de capturar carbono – e, portanto, o suporte à atividade ainda é um
grande desafio.

“Eu creio que não é uma
questão de custo, mas fundamentalmente uma questão de valor. Enquanto a
sociedade não conseguir entender o valor do abatimento de carbono, ele não vai
acontecer”, afirmou Rob Littel, General Manager
Gas Separation da
Shell.

Eric Larson, da Princeton
University, acredita que um dos principais gargalos para a CCS é a liderança
política. “No momento, creio que não haverá liderança política para ações de
CCS nem aqui no Brasil nem nos EUA, meu país, por motivos óbvios.”

Para o professor Julio
Meneghini, diretor científico do RCGI, a disseminação de conhecimento a
respeito das mudanças climáticas e da CCS pelos cientistas é fundamental e tem
o poder de impactar a sociedade que, por sua vez, pode pressionar os governos.
“Isso tem de ser feito passo a passo, e há muitos passos a dar até atingirmos
uma sociedade descarbonizada, daqui a 30 anos. É preciso balancear as ações
políticas e conversar com o governo, fazê-lo entender a importância do tema.”

CCUS
Uma outra maneira de ‘estocar’ o carbono é transformá-lo em outros  produtos úteis para a sociedade e a
indústria, a chamada de Carbon Capture Utilization and Storage (CCUS). De
acordo com Alissa Park, professora da Columbia University, hoje em dia é muito
difícil obter licença para enterrar carbono nos EUA. “Obter permissão para
fazer reinjeção é mais fácil.”

Ela listou os “top 5” produtos
que se pode obter a partir do CO2: concreto, combustíveis, agregados, polímeros
e metano. “Aqui a questão básica é: quanto podemos obter desses produtos e como
criar mercado para eles? Além de atentar para o fato de que o input energético necessário
para transformar o CO2 em produtos como os químicos, por exemplo, tem de vir de
uma fonte limpa”.

Segundo ela, a ponte
tecnológica representada pela CCS e pala CCUS não é algo efêmero, mas sim uma
estratégia para décadas, e para as gerações vindouras. “É preciso avançar em
ciência fundamental e engenharia para entregar essas soluções. E há várias
soluções. O Brasil aparentemente não está muito comprometido com CCUS, mas está
bastante comprometido com bioenergia. É possível tratar de ambos conjuntamente,
mas imagino que seja preciso pressionar governo um pouquinho mais.”

De acordo com Alissa, há
uma tendência de obtenção de energia a partir de gases altamente energéticos,
como CO, H2 e CH4. “Esses são geralmente gases residuais produzidos por plantas
de fabricação de aço, por exemplo. São biocombustíveis de nova geração, e
estamos trabalhando muito com eles nos EUA.”

Preço do carbono
– A precificação do carbono foi uma outra questão endereçada pelos convidados e
considerada chave para o ganho de escala de atividades de CCS. “Não creio que
haverá um único preço para o carbono no mundo. Cada país deverá estipular um
preço par ao carbono que deixa de emitir”, opina o professor Larson. 

Ele capitaneia um projeto
chamado Rapid Switch, que se dedica a estudos sobre os gargalos, as barreiras e
as consequências não intencionais que podem vir a emergir em diferentes
setores, e em diferentes partes do mundo, no tocante à transição energética. “Queremos
saber como maximizar a taxa de transição energética: como fazer mais rápido”,
resume o professor. Intensidade energética, materiais críticos, capacidade de
recursos humanos, organização e transformação da infraestrutura são alguns dos
pontos para os quais os cientistas do projeto estão olhando.

“Os EUA, por exemplo,
teriam de reduzir sua intensidade energética em 75% para que conseguíssemos
limitar em apenas 2° C de aumento da temperatura da Terra até 2060”, revela,
explicando que a intensidade energética é a medida de uso de energia por dólar
de PIB.

Quanto e onde estocar
– Comparando cenários obtidos por diferentes tipos de modelagem, que têm como
referência o limite de aumento da temperatura em, no máximo, 2° C até 2060, o
professor Larson, deu uma ideia do quanto seria necessário estocar. “No chamado
cenário 2DS, da Agência Internacional de Energia, seria necessário estocar
anualmente 7 Gigatoneladas em todo o mundo. É uma quantidade substancial de CO2
para estocar.”

Segundo ele, diferentes
documentos dão conta de que há muita capacidade de estocagem de CO2 no mundo. “A
maioria das publicações afirma que há muito mais capacidade de estocagem do que
precisamos, mesmo no cenário de 2 °C.  Mas
é preciso uma maneira de ganhar dinheiro com isso, do contrário não
conseguiremos ganhar escala para a atividade. Há questões a respeito de quanto
dessa capacidade será utilizável realmente, e essas questões dependem de
diversos fatores, como a geografia, a injeção propriamente dita, as capacidades
institucionais e empresariais necessárias, entre outros. São áreas que
precisamos entender melhor.”   

Para Rob Littel, da
Shell, há ainda uma questão de prioridades. “Penso que devemos começar pelo que
é mais fácil, mais viável. O problema das emissões da aviação, por exemplo, é
significativo, mas dificílimo de resolver a curto ou médio prazo. Há fontes de
emissões cuja captura é mais fácil. Comecemos por elas.” 

Para além do CO2
– O físico Paulo Artaxo, membro do painel do IPCC e professor da Universidade
de São Paulo, ressaltou que as mudanças climáticas estão mudando, e muito mais
rápido do que mostravam os modelos de dez anos atrás. “Nós nos acostumamos a
olhar para o CO2, porque ele é o principal driver das mudanças climáticas, mas
não é o único. É importante ampliarmos nossa visão sobre como lidar com as
pesquisas na área de mudanças climáticas. O clima em nosso planeta é controlado
pela concentração de GEEs, mas também por poluentes como ozônio, metano e black
carbon; e é mediado por nuvens, aerossóis, pelo albedo de superfície e pela
radiação do sol. É um sistema muito complexo, e temos de atentar para os
diferentes feedbacks desse sistema.”

Além do mais, segundo
ele, o problema não é só o clima. Este é apenas um dos problemas. “A
apropriação da produção de biomassa pela espécie humana, em alguns lugares do
mundo, chega a 60%, 70% da produtividade vegetal líquida primária do globo. E
isso tem muitos impactos, como mudanças no carbono orgânico do solo, por
exemplo. Trata-se de uma propriedade muito importante do solo, que sustenta a
agricultura, a microbiota que fixa nitrogênio… Em algumas áreas da Índia, da
UE e até do Brasil registram-se mudanças no carbono orgânico do solo da ordem
de 40%, 50%.” Mas lembrou que, infelizmente, as emissões continuam a subir.

Presenças ilustres – Estiveram presentes ao evento o Secretário de infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de São Paulo, Marcos Penido; o Vice Presidente de tecnologias de abatimento de carbono de gás e óleo da Shell, David Torres; o vice-diretor da Escola Politécnica da USP, Reinaldo Giudice (representando a diretora Liedi Bernucci); o diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Alex Garcia de Almeida, representando o presidente da agência reguladora (Décio Oddone), o presidente da FAPESP, Marco Antônio Zago; e pró reitor de pesquisa da USP, Sylvio Canuto, representando o reitor da universidade, Vahan Agopyan.

Imagem: Pixabay

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