Controle dos preços do petróleo é crucial para viabilizar transição energética, diz economista em palestra do RCGILex

Como entender a crise provocada pela pandemia de COVID-19 sob a lógica de longo prazo da transição energética? Os recentes preços baixos do petróleo significam que a indústria fóssil acabou e que o ambiente está propício para as renováveis? Muito pelo contrário, segundo o economista Carlos Germán Meza González, pós doutorando em Energia pelo Instituto de Energia e Ambiente da USP (IEE/USP), que palestrou em um evento via Google Meet organizado pelo RCGILex na última segunda (27.04). De acordo com ele, as projeções da retomada pós crise indicam crescimento acelerado na economia mundial, e ele será energizado pela infraestrutura existente, majoritariamente fóssil. González crê que não só a transição energética sofre o impacto da pandemia com mais intensidade do que os fósseis, mas que o controle dos preços do petróleo é crucial para viabilizá-la, e destacou o papel da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP).

“A aceleração da capacidade instalada de renováveis que presenciamos nesses últimos anos se dá no contexto de preços altos do petróleo. Por outro lado, se a queda dos preços do petróleo se mantém, ela afeta a competitividade das renováveis. O veículo elétrico perde espaço, por exemplo, se o petróleo fica muito barato. Com preços baixos na indústria petrolífera, a competitividade das renováveis diminui. A crise afeta a todos, mas gera uma interrupção dos projetos de renováveis.”

De acordo com González, o período pós COVID-19 acelerará a demanda por energia e estabilizará os fósseis. “Mas são as renováveis que precisam estabilizar e crescer de forma exponencial e constante. A capacidade instalada renovável global estagnou em 2018. Dados relativos àquele ano mostram que as renováveis só perfazem 4% do consumo primário de energia no mundo. Os fósseis dominam, com 85%. Só 10% da eletricidade global é produzida por renováveis. A participação da energia nuclear está caindo e a das usinas a ciclo combinado, sobretudo movidas a gás natural, vem aumentando rapidamente”, apontou.

O pesquisador destaca que os investimentos em renováveis são bem menores em volume do que os investimentos em upstream e downstream do conjunto das petroleiras que opera no mundo. “Além disso, quando comparamos a lucratividade das petroleiras com a dos empreendimentos renováveis, observamos que a das petroleiras é maior, embora mais volátil. Um ponto importante: em 2006, a lucratividade das renováveis era em torno de 10%, mas ela vem caindo nos últimos anos, e atualmente está em 5%. Isso é um fenômeno que também impacta negativamente a inserção acelerada das renováveis na matriz mundial.”

É bem verdade que há pontos favoráveis às renováveis também. O custo das baterias de lítio é um deles. “Trata-se de uma tecnologia cujos custos foram significativamente reduzidos entre 2010 e 2017, passando de mil a duzentos dólares por kWh: uma queda de 81%!! As baterias são  importantes se almejamos um sistema com a maior parte da energia oriunda de renováveis, pois permitem armazenar a energia gerada por sistemas intermitentes. São ainda a peça chave para a autonomia dos veículos elétricos, e para torná-los mais competitivos”, resumiu González.

Além disso, as tendências de consumo primário de energia no mundo entre 1985 e 2018 indicam que há uma queda de 15 pontos percentuais no consumo de petróleo, e que o consumo de carvão também está queda (com o fechamento de usinas nos EUA e Europa). Houve, entretanto, incremento no consumo primário de energia oriunda de gás natural.

Determinantes da transição – O economista chamou a atenção para sete fatores que, em sua opinião, são os determinantes da transição: a dependência da trajetória histórica, pois as transições demoram a acontecer; a importância da Carbon Capture and Storage (CCS); o fato do Energy Return on Invetsment (EROI) dos fósseis ser superior ao das renováveis; a questão da abundância dos recursos energéticos (ela não é a mesma, visto que as não renováveis são finitas, mas tampouco há escassez de fósseis); o fato do mercado do petróleo servir como parâmetro de controle da transição (basicamente controlado a oferta e mantendo os preços do petróleo relativamente altos); o crescimento populacional e a descarbonização da agricultura; e o uso (ou não) de energia nuclear.

E lembrou que, historicamente, as transições energéticas são fenômenos de longo prazo. “Queimar lenha foi fundamental para a evolução humana, 0.5 milhão de anos atrás aproximadamente. Há 8 mil anos o carvão vegetal permitiu a metalurgia. A idade da pedra não acabou por falta de pedra, mas por conta do uso do carvão vegetal, que tem poder calorífico e atributos químicos diferentes da lenha, e permitiu a fundição do bronze. Usamos combustíveis fósseis há apenas 250 anos, e esse uso começou com o carvão mineral, que permitiu a revolução industrial e o surgimento da máquina a vapor. Em 1840 o carvão mineral tinha um peso de 5% na matriz energética mundial. Demorou 50 anos para ele chegar a 50% da matriz. Começamos a usar petróleo e gás no início do século XX. O petróleo também demorou 50 anos para perfazer 40% da matriz energética mundial. As transições demoram muito tempo.”

Outro fator determinante da transição é o EROI, um indicador que permite analisar a quantidade de unidades de energia necessária para obter unidades de energia de outra fonte. “As fontes alternativas, via de regra, não costumam produzir tanta energia líquida quanto os fósseis, especialmente os biocombustíveis. Na verdade, os biocombustíveis são produzidos com insumos altamente dependentes de fósseis”, disse González.

Há também a questão dos ‘materiais críticos’, indispensáveis na indústria das renováveis, mas que não estão distribuídos uniformemente na superfície do planeta. “Se a transição se acelera haverá incremento substancial na produção desses materiais. Teremos problemas de fornecimento? Teremos preços crescentes?  Haveria uma nova geopolítica das renováveis emergindo? São questões que estão na mesa.” Por outro lado, não há problemas de escassez de fósseis nem em curto, nem em médio, nem em longo prazo. “Há reservas provadas para prover o mundo em longuíssimo prazo.”

Ele também levantou dúvidas sobre a possibilidade da transição energética ocorrer sem a participação dos EUA. “Caso a transição energética se acelere, ela vai precisar de um fluxo de energia de garantia que, dada a estrutura energética atual, vai vir dos fósseis. Ou seja: para transitar rapidamente para as renováveis, o mundo vai precisar dos fósseis. Os EUA se tornaram, após o boom do shale, uma grande potência produtora de fósseis, e influenciam o mercado, até pouco tempo atrás controlado totalmente pela OPEP. Se precisaremos dos fósseis para a transição, e se os EUA são uma potência fóssil no mundo, fica difícil imaginar uma transição sem a participação deles”, raciocinou o pesquisador.

Uma questão que emerge no debate é a da descarbonização da agricultura. “É bastante complicado imaginar uma agricultura sem fósseis; eles estão presentes em toda a cadeia, principalmente na síntese de Haber-Bosch para produção de fertilizantes que aumentam a produtividade no campo. Destaca-se aqui o papel do gás natural: na amônia, necessária para a produção de fertilizantes, há dois átomos de nitrogênio e três de hidrogênio. O hidrogênio mais barato, hoje, ainda é oriundo da separação do carbono na composição do metano (CH4).”

De acordo com ele, estudos indicam que, usando somente agricultura orgânica, seria possível alimentar apenas metade da população da Alemanha. “Segurança alimentar é um dos ODS da ONU. Mas a questão da agricultura orgânica sem fósseis provavelmente é contraproducente se almejamos a segurança alimentar. Claro que se pode fazer amônia verde, por eletrólise da água, mas ela é  duas a três vezes mais cara que a tradicional, e perde ainda mais competitividade com os preços baixos do petróleo.”

O pesquisador atentou ainda para o uso, ou não, da energia nuclear. “Se quisermos fazer a transição banindo a energia nuclear, não é necessário apenas aumentar a capacidade instalada das renováveis, é preciso aumentar muitíssimo essa capacidade. Sem a energia nuclear, a descarbonização fica mais complicada”, pontuou.

Ele também acredita que descarbonizar não implica necessariamente em eliminar os fósseis. “Caso a CCS se consolide técnica e economicamente, podendo operar inclusive em sistemas híbridos de renováveis intermitentes, as emissões do lado da geração de energia estariam controladas. Para mim, é uma estratégia com chances reais de sucesso, pois minimiza esse efeito de ‘perdedores e ganhadores’. Não se trata mais de fósseis contra renováveis: é um conjunto. Há problemas regulatórios, legais e de opinião pública, mas acho uma opção interessante.” 

OPEP e transição energética – Para o pesquisador, o controle exercido pela OPEP há décadas na produção, oferta e, consequentemente, nos preços do petróleo, atua também como um parâmetro de controle da transição energética.

“Com a OPEP controlando a produção e a oferta, ela pode aumentá-las ou diminuí-las e influenciar os preços. Para mim, esse é um parâmetro de controle da transição, porque os preços do petróleo afetam as fontes alternativas. Se observarmos a curva de oferta de combustíveis líquidos em 2012, o barril estava em 110 dólares. A renda dos exportadores, claro, era altíssima, mas não só isso; esse preço viabilizava outras fontes: o shale, que tem custo alto; os biocombustíveis, que são relativamente caros e, como vimos, dependentes dos fósseis; até mesmo alternativas como a transformação do carvão mineral em gasolina pela síntese de Fischer-Tropsch, que é uma opção cara, se viabilizam. Agora, com o preço desses últimos dias, 15 dólares o barril, todas essas opções ficam inviáveis economicamente”, afirmou.

Ele lembra que, em 1960, quando a OPEP foi fundada, 85% das reservas mundiais estavam nas mãos das companhias internacionais, 14% da União Soviética, e apenas 1% nas mãos das petrolíferas nacionais. Em 2018, 78% das reservas provadas estão com a OPEP e a Rússia (72% e 6% respectivamente), responsáveis por 54% da produção mundial.

“Se a OPEP desaparece, a produção fica distribuída mais homogeneamente e a concentração da produção diminui, os preços do petróleo vão cair. Uma queda nos preços de petróleo é o pior que pode acontecer para a transição energética”, enfatizou González.

A professora Virgínia Parente, economista, docente do IEE/USP e coordenadora de um dos projetos do RCGI,  disse concordar 100% com ele. “O gancho é realmente o preço. As novas renováveis precisam de petróleo de preço mais alto para acelerar e aumentar sua participação no futuro”, afirmou.

Por outro lado, afirma González, se os preços do petróleo não estivessem tão baixos, a crise causada pela COVID-19 seria bem mais profunda.

Recuperação e emissões – O palestrante lembrou que as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa (GEEs) do Acordo de Paris já não estavam sendo cumpridas antes da pandemia, e que muito dificilmente serão cumpridas depois, embora a pandemia tenha proporcionado uma queda no ritmo das emissões de GEEs. Segundo ele, caso ocorra na taxa que vem sendo estimada, a recuperação pós COVID-19 pode aumentar as emissões. Já para a professora Virgínia Parente, a tendência, talvez, seja uma recuperação um pouco mais lenta.  

“Qualquer queda drástica da atividade econômica empurra para baixo as emissões, porque as fábricas trabalham menos, vendem menos, os países ficam mais pobres e compram menos. O comércio mundial vai reduzir bastante, inclusive porque os países vão tentar ser protecionistas, em vez de gerar emprego e produção em outros países, tentarão proteger suas indústrias e vão importar menos. Isso vai fazer cair a produção e o transporte no mundo, a capacidade de venda da China, que é tão grande… E uma recuperação lenta segura muito as emissões”, explicou a professora.   

Para González, a transição energética e a descarbonização estão em uma etapa inicial e tendem a se projetar no longo prazo. “A transição energética luta para se libertar da trajetória histórica que consolidou os fósseis e as interligações com o mercado energético e a economia global. Ela fica presa nesse ciclo dos preços do petróleo, por isso acredito que, se a OPEP controla os preços, consegue ajustar o ambiente para a transição. O mercado do petróleo pode acelerar ou desacelerar a transição com as suas decisões. Mas é fundamental dizer que, para que ela ocorra, a redução de custos das renováveis e do armazenamento (baterias) é crucial.”

O evento foi organizado pela equipe do RCGILex, ligado ao projeto 21 do Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI) e coordenado pela professora Hirdan Katarina de Medeiros Costa, e constou com a participação de 28 pessoas.

Imagem: Pixabay

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