Fontes solar e eólica são ‘inesgotáveis’, e não ‘renováveis’, afirma geógrafo

Em artigo publicado em junho no International Journal of Water Managment and Diplomacy, o professor Luís Antonio Bittar Venturi revisou o conceito de ‘recursos naturais’ e propôs uma nova classificação. Em lugar do binômio ‘renovável e não renovável’, o geógrafo propõe duas grandes categorias: duráveis e esgotáveis, sob as quais haveria ainda subdivisões. De acordo com ele, fontes como a solar e a eólica, por exemplo, não podem ser agrupadas sob a mesma categoria conceitual da cana-de-açúcar. Bittar proferiu uma palestra sobre o tema no RCGILex no dia 21 de outubro. Clique aqui para acessar a apresentação (Power Point).

“Uma lista fixa de recursos renováveis e não renováveis pode ser apenas uma referência inicial para o estudante, até o ensino médio, por exemplo, mas não é possível levar essa classificação adiante, para a academia, porque ela não tem a acurácia que a ciência demanda. A renovabilidade ou não renovabilidade depende de aspectos naturais e também sociais como, por exemplo, ritmo, tipo e intensidade de uso do recurso. Os solos usados para agricultura são excelentes exemplos. Assim, não se deve disseminar a ideia de que um recurso é renovável apenas por suas características naturais.”

O professor propõe que os recursos duráveis sejam subdivididos em quatro subcategorias: renováveis (florestas, população de animais, solos em determinadas condições, correntes fluviais, lenha, biogás, sal etc); reprodutíveis (que incluem os produtos da agricultura, silvicultura e pecuária, criações em geral, água doce, sal e outros); naturalmente recicláveis (como água e nitrogênio, por exemplo); e inesgotáveis (fontes que geram energia solar, eólica, geotérmica, maremotriz e ondelétrica, além  de alumínio, matérias brutas para construção civil, como areia e brita, sal, água e outros).

“A cana-de-açúcar, por exemplo, não é renovável, por duas razões: primeiro, porque não se recupera naturalmente, e segundo, porque depende do solo, que pode ser esgotável. Assim, a melhor classificação para a cana é recurso ‘durável reprodutível’.  Os recursos reprodutíveis são aqueles em que a dinâmica natural é acelerada pela técnica para atender às demandas sociais . Já o sol e o vento também não podem ser classificados como renováveis. Eles são inesgotáveis. Porque, não há como se falar em reprodução natural de estoques, como propõe o conceito de renovabilidade.”

No tocante à classificação, a água parece ser um tema polêmico. “Consideramos a água como um recurso naturalmente reciclável, inesgotável e reprodutível. Ela só é renovável localmente, pois, em escala global, as quantidades são as mesmas há 2 bilhões de anos”, argumenta Bittar, que é professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH/USP) e coordenador do projeto nº 28 do Fapesp Shell Research Centre for Gas Innovation (RCGI).

Já os recursos esgotáveis ele dividiu em duas categorias: finitos (diversos minerais como petróleo, carvão, etc, além de solos aráveis em determinadas condições) e renováveis mal utilizados (ou super explorados, como populações de peixes, ou os solos usados para a agricultura, por exemplo, que podem se esgotar por erosão ou pelo excesso de uso de químicos).

Lapidando o conceito – Bittar também propõe a adição de alguns termos ao conceito core de ‘recursos naturais’, qual seja: “Qualquer elemento da natureza que possa ser explorado pelo Homem”. Segundo ele, apesar deste conceito incluir as dimensões ‘física’ e ‘social’, é necessário incorporar outras dimensões, como materialidade, historicidade/geograficidade, finalidade e universalidade.

“Um elemento da natureza passa a ser um recurso quando há demanda por ele. É a relação que a sociedade estabelece com os recursos que os torna recursos. Por isso, o recurso muda no tempo e no espaço: o amianto não é mais recurso na Europa, mas ainda é em alguns países que permitem seu uso; a energia nuclear está sendo banida de alguns países, mas o urânio ainda é recurso nos países que se fiam em energia nuclear. O mesmo acontece com o shale gas, cuja exploração foi proibida em diversos países, mas é um recurso importante nos EUA, por exemplo.”

Outra questão apontada por ele é a possibilidade de aproveitamento indireto e imaterial de um recurso, que não consta no conceito fundamental. “Uma paisagem que incentive o turismo, ou o uso do relevo de um local para gerar hidroeletricidade são exemplos típicos. E, nestes casos, é a demanda que vai até o recurso, e não o contrário.”

Assim, inserindo as dimensões acima citadas no conceito, Bittar propõe a seguinte redação:

“Recurso natural pode ser definido como qualquer elemento ou aspecto da natureza que esteja em demanda, seja passível de uso ou esteja sendo utilizado pelo Homem, direta ou indiretamente, como forma de satisfação de suas necessidades físicas e culturais em qualquer tempo ou espaço.”

No início de 2021, o palestrante estará lançado um livro sobre o tema: “Recursos Naturais do Brasil”, pela editora Appris, com apoio da FAPESP.

Para saber mais, clique aqui e acesse o artigo do International Journal of Water Managment and Diplomacy.

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