Pandemia expõe jogo de forças entre grandes produtores mundiais de petróleo

Os efeitos do Coronavírus no mercado do petróleo contribuem para escancarar e tornar mais sensível uma relação já delicada, e bem conhecida: há décadas, os principais produtores do mundo medem forças – alguns reunidos na Organização dos Países Exportadores de Petróleo, a OPEP, outros fora dela – enquanto buscam manter as cotações da commodity em patamares lucrativos. Para controlar o preço do petróleo, os grandes produtores decidem quanto vão ofertar. Mas, nem sempre eles se entendem. Basta observar o que está acontecendo agora entre Rússia e Arábia Saudita. Essa guerra, acirrada pela pandemia, tem como pano de fundo a entrada de um grande player no mercado internacional nas duas últimas décadas, como ofertante: os EUA.

Com o desenvolvimento de tecnologias de exploração e produção de óleo e gás dos folhelhos, e o consequente barateamento desses processos por conta da intensidade de recursos investida em pesquisa e inovação nessa indústria, os EUA passaram em pouco tempo de grande importador a grande exportador dessas commodities. Em 2014 todos assistimos à OPEP (composta por 13 países) derrubar o preço do barril para “puxar o tapete dos EUA”. Mas o país resistiu e a OPEP acabou perdendo a parada.

Hoje, os EUA são o maior produtor mundial de petróleo e gás natural. O segundo é a Arábia Saudita, que controla a OPEP. E o terceiro é a Rússia, que não faz parte da OPEP. Entretanto, após a tentativa frustrada de inviabilizar a produção americana a partir dos folhelhos, a OPEP se aliou aos Russos (OPEP +) em um acordo para reduzir a produção mundial e assim restabelecer preços e margens de lucro.

Os parceiros estavam se entendendo bem, até aparecer o Coronavírus. A pandemia está derrubando a demanda global por combustíveis, e os preços do barril despencaram nas últimas semanas, recuperando-se levemente na quinta (19.03), após a maior queda registrada em 20 anos, segundo informa a Reuters. O barril de petróleo Brent iniciou 2020 cotado a US$ 68,75, e fechou a última sexta-feira (20) a US$ 27,58. Já o barril do WTI começou o ano a US$ 60,99 e está cotado a US$ 22,43, com informa o site Suno.

Diante da queda na demanda, a Arábia Saudita quis novamente cortar a produção, mas a Rússia disse não. Os sauditas, então, anunciaram o aumento da produção, e consequente a derrubada de preços. A Rússia, em resposta, mandou avisar que poderia suportar preços baixos por cerca de 10 anos. Entretanto, a economia russa é fortemente dependente dos preços do petróleo. De acordo com o site OilPrice, as receitas russas do gás e do petróleo serão USD 39.5 bilhões mais baixas do que o esperado – palavras do Ministro das Finanças da Rússia, Anton Siluanov.  Ele já avisou que o orçamento russo fechará em déficit esse ano.

O país anunciou, recentemente, a formação de um fundo de USD 4 bilhões, com parte de um pacote cujo objetivo é atravessar esse período de perda de receitas, segundo informa o OilPrice. Alguns analistas afirmam que a Rússia está querendo o mesmo que os sauditas tentaram lá atrás: tornar inviável a produção americana, inundando o mercado a preços baixos, e ganhando novos mercados. Em que pese a experiência exitosa dos americanos há menos de uma década, deve-se observar que o momento agora é outro.

 Os EUA continuam produzindo muito óleo e gás de folhelho, mas as taxas já não crescem na proporção dos últimos anos. A Energy Information Administration (EIA) prevê um crescimento na produção de gás de 1.9% ao ano de 2020 a 2025, previsão consideravelmente mais modesta do que a média de crescimento de 5.1% ao ano observada entre 2015 e 2020. Segundo o jornal Financial Times, a produção de gás natural quase dobrou desde 2005 até hoje, e a produção de petróleo bruto saltou quase 160% desde 2008.  

O periódico alerta que os riscos de falência no setor de exploração de shale gas aumentaram com os preços baixos do petróleo e a contração do acesso ao crédito, e revela que há um montante de US$ 86 bilhões em dívidas que começam a vencer justamente neste momento, em que a pandemia e a oposição entre OPEP e Rússia viram o mercado do avesso, fazendo os preços desabarem. Juntamente com a baixa dos preços, a crise de crédito e o aumento do custo de capital para os produtores endividados podem diminuir ainda mais as expectativas de crescimento da produção norte-americana, conclui o periódico.  

Assim, a pandemia pegou os produtores americanos “de calças curtas”: endividados e com a capacidade de reinvestimento encolhendo. Bem possível que a Rússia tenha vislumbrado a oportunidade e arriscado uma cartada ousada, ao insistir em manter a produção sem recuo. Vale lembrar que os óleos de petróleo e minerais betuminosos são o primeiro item da pauta de exportações americana (representam 5,9% das exportações do país). Agora, todos se perguntam quem tem mais lenha para queimar: Arábia Saudita e OPEP, ou Rússia? Os EUA ensaiam uma intervenção na guerra de preços. O jornal Valor Econômico afirmou na quinta (19) que Donald Trump deverá “fazer um esforço diplomático para levar os sauditas a cortar a produção de petróleo e ameaçar impor sanções à Rússia.”  Até lá, caberia questionar como a guerra de preços russo-árabe afeta players como o Brasil, cuja produção aumenta a cada ano, bem como a exportação?

Crise de demanda – No Brasil, que bateu recorde de exportação de petróleo em dezembro de 2019 (8,72 milhões de toneladas em dezembro, mais que o dobro das 3,77 milhões de toneladas registradas em novembro), o impacto dos grandes players brigando entre si e derrubando preços deverá ser sentido nos próximos meses. Os óleos brutos de petróleo são hoje o primeiro item de exportação do portfólio brasileiro, representando 12% dele (Secex, acesse aqui).

Do outro lado, ao derrubar a demanda, a pandemia cria um excesso de oferta de refinados como gasolina e outros combustíveis. Tanto que a Petrobras anunciou na última quinta (19) novo corte nos preços dos combustíveis nas refinarias: o óleo diesel foi reduzido em 7,5% e a gasolina, em 12%, informa a agência Epbr. Na quinta-feira passada (12), a Petrobras já havia reduzido o preço da gasolina em 9,5% e o do diesel em 6,5%. Segundo noticiou a Folha de S. Paulo na quinta (19), as vendas em relação à média histórica na cidade de São Paulo recuaram 39%; em Goiânia, 42%; em Porto Alegre, 26%; e em Belo Horizonte, 19%, de acordo com informações da Fecombustíveis.

Em entrevista à Reuters, o diretor da ANP, Aurélio Amaral, afirmou que a ANP estuda medidas para os postos de combustíveis, que já estão sofrendo com queda nas vendas, e providências no sentido de reduzir o custo regulatório para aqueles que atravessam a crise de demanda.

“Além de cenários de desinvestimentos e de baixa da demanda, outro cenário a pontuar é o dos entes públicos, em especial os estados e municípios que dependem de receitas de royalties de petróleo para agirem já, nesses tempos árduos, de necessidade de muito ajuste fiscal e, agora, combate à pandemia. A queda do preço do barril, aliada à subida da cotação do dólar, pode tornar a situação mais nefasta para o Brasil no curto prazo, já que exportamos petróleo cru e importamos derivados. Ou seja: nossa receita com o óleo cru deverá cair, e nossas despesas com a importação de derivados podem aumentar. Resta, portanto, que a humanidade atue pelo controle e fim do Coronavírus”, resume a professora Hirdan Katarina de Medeiros Costa, advogada e coordenadora do RCGILex.

Segundo a Reuters, no mundo todo, a queda na demanda tem levado refinarias a considerar extensas paradas para manutenções e a desaceleração da produção. A agência noticiosa informa que, na Ásia, as margens despencaram na última semana para mínimas de vários meses ou anos; e na Europa, as refinarias perdem quase USD 7 para cada barril de gasolina produzido.

Imagem: Pixabay

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