“Tratar de gênero é falar de escolhas”, concluem cientistas reunidas na GWNET América Latina

Com a famosa frase de Madeleine Albraight: “Há um lugar especial no inferno para mulheres que não se ajudam”, Christine Lins, diretora executiva da Rede Global de Mulheres para a Transição Energética (GWNET) ‘passou a bola’ para a Embaixadora da Áustria no Brasil e no Suriname, Irene Giner-Reich, iniciar uma roda de debates por ocasião do lançamento da Rede na América Latina.

O evento aconteceu nesta terça, 18 de junho, no auditório do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEE/USP), durante o Diálogo em Energia Renovável e Transformação Energética e o tema das discussões foi O Papel da Mulher na Transição Energética.

As professoras Suani Teixeira Coelho (uma das organizadoras do evento), Virgínia Parente e Hirdan Costa, coordenadoras de projetos do Fapesp Shell Research Center for Gas Innovation (RCGI) participaram dos debates, juntamente com a Diretora de Recursos Humanos e Liderança do Centro, Karen Mascarenhas, e a jovem pesquisadora da Fapesp, Drielli Peyerl, também do RCGI.

Para Laura Valente, do Conselho Consultivo do Governos Locais pela Sustentabilidade (ICLEI), é importante empodeirar as mulheres para educar sobre a questão da transição energética. “A educação é uma seara em que a mulher se sai muito bem. E, nas cidades, temos um estilo de vida que inclui o consumo de maneira muito intensa. Em qualquer debate relacionado à energia, o consumo é a chave. E acho que as mulheres têm um papel importante na educação para o consumo”, resumiu.

A professora Suani lembrou que as mulheres tiveram um papel muito importante durante a crise energética que o país atravessou no início dos anos 2000 – que ficou conhecida como “apagão”. “Elas foram as responsáveis pela redução do consumo das famílias, e isso não foi contabilizado.”

Para Alejandra Campos, da Rede Mulheres em Energia Renovável e Eficiência Energética (REDMEREEE), não devemos focar só o consumo, mas o acesso. “O acesso à energia facilita a vida das mulheres, porque facilita acesso à saúde, à alimentação de qualidade…” A professora Virgínia Parente também enfatizou o acesso. “Há ainda 2 milhões de pessoas sem acesso à energia no Brasil. E quando falamos de acesso estamos falando de energia confiável, de qualidade de fornecimento. É preciso resolver isso.”

Opções – A professora Suzana Kahn Ribeiro atentou para a importância de que a mulher tenha opções, e não que tente seguir um modelo de “sucesso” pré-estabelecido.  “Eu acho que devemos ser mais flexíveis com mulheres que escolhem não ter uma carreira. A gente é muito dura com elas. Minha enteada recentemente decidiu isso: ficar mais com os filhos, parar de trabalhar. E todos foram tão contra ela! Talvez no inferno haja um lugar também para quem não apoia aquelas para quem felicidade é estar em casa, por exemplo. O que quero dizer é que o importante é que as mulheres tenham opções.”

De acordo com ela, há uma imensa pressão pelo “ser bem-sucedida”, mas a felicidade e o sucesso não são conceitos iguais para todas. “Nesse sentido, eu queria dar alguns números sobre a universidade. Aqui, a maioria dos estudantes de graduação é de mulheres. E isso é incrível, porque, no geral, nós temos mais formação que os homens. Mas boa parte dessas mulheres cursa graduações relacionadas às humanidades, às comunicações, às artes – e esses cursos não produzem CEOs, não são cursos que fazem você galgar altas posições nas companhias. É compreensível que você não seja uma CEO se você é uma artista. É uma questão do que você gosta de fazer. Agora, creio que há habilidades muito comuns às mulheres, como empatia, sensibilidade, criatividade que acho que serão muito valorizadas nos anos que se seguem, porque não podem ser substituídas por robôs ou algoritmos.”

Laura Valente fez coro com Suzana. “Gênero não é só sobre homem e mulher, é sobre escolhas.”

Maria Cristina Fedrizzi, do laboratório de bombeamento fotovoltaico do IEE/USP, mostrou dados sobre maternidade e produtividade científica publicados pela professora Aline Pan no I Encontro de Mulheres na Energia Solar, realizado este ano. “Segundo enquete feita pela professora, 59% das mulheres avaliam como ‘bastante negativo’ o impacto dos filhos na produção científica e somente 2% avaliam-no como ‘bastante positivo’. É preciso pensar sobre esses dados.”

Cotas – Elas discutiram a questão das cotas para mulheres em empresas e dentro do estado, e a maioria ponderou que é uma solução insuficiente e transitória, mas talvez necessária em um primeiro momento.

“No Ministério onde trabalho não temos cotas, mas temos regras que dizem que se um homem e uma mulher têm a mesma qualificação para uma posição, a prioridade vai para a mulher até que se tenha algo entre 40% e 60% de paridade entre os gêneros”, disse Irene, que é Embaixadora.

“Trabalhei por dez anos em uma empresa de óleo e gás, e depois para o governo. Tenho a experiência do setor privado e do Estado. E, nesse sentido, não há muita diferença entre ambos: o número de mulheres em cargos mais altos ainda é muito baixo. Aprovamos em 2017 na Argentina uma Lei que estabelece o número igual de homens e mulheres para candidaturas ao Congresso. Já é um primeiro passo”, acredita Andrea Hains.

“No Brasil, também há um projeto de Lei que exige a presença de 30% de mulheres nos conselhos de administração das empresas públicas, sociedades de economia mista e demais empresas em que a União, direta ou indiretamente, detenha a maioria do capital social com direito a voto”, lembrou a professora Hirdan Costa.

Ao final, a professora Suani Coelho propôs um aprofundamento no debate. “Vamos nos organizar e formar de grupos para discutir todas as questões que apareceram no dia de hoje.”

Entre as mulheres de destaque em suas áreas de atuação que participaram do debate estavam ainda Telma Teixeira Franco, professora da UNICAMP; Maria Cristina Fedrizzi, do laboratório de bombeamento fotovoltaico do IEE/USP; Carolina Marques Leão, da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB); Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEEolica), e Ana Paula Fava (do Gabinete Civil do Governo do Estado de São Paulo).

Imagem: GWNET

1 comment on ““Tratar de gênero é falar de escolhas”, concluem cientistas reunidas na GWNET América Latina

  1. Pingback: “Treating Gender is Talking about Choices,” Conclude Scientists Gathered at GWNET Latin America – GWNET

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.